FASCISMO



O fascismo não é um nome ou sobrenome pelo qual alguém decide passar a ser chamado de uma hora pra outra. Não é uma camisa que um indivíduo decide vestir e só a partir de então as suas ações passarão a ser efetivamente fascistas. O fascismo não é um time, não é uma bandeira, não é um partido, nem um candidato. O fascismo é um conjunto de valores, é uma formulação de vontades, um arcabouço de ações, um viés de caráter que, muitas vezes, pode até mesmo ser defendido, afirmado e praticado sem receber o nome de fascismo. O fascismo nem sempre é descarado; pelo contrário, quando ele se mostra em todo o seu horror e deformação, é porque os seus sinais mais sutis já se manifestaram e encontraram terreno para se afirmar e estabelecer.


O fascismo parte de uma determinação interna, uma certa vontade cega e feroz, imatura e irracional, de fazer valer as próprias vontades sobre a vida dos demais. E movido pela sanha de uma autoafirmação vazia, o fascista se propõe a destruir tudo e todos que se colocam contra os seus interesses, quase sempre pueris e despropositados, pautados na recorrente ânsia por apontar, perseguir e destruir. Eis o seu constante e insaciável desejo.



Porque o fascista é, antes de tudo, um incompetente. Ele é alguém que não tocou nem desenvolveu a capacidade de se apossar e civilizar os próprios instintos, as próprias vontades e, por isso, tem na manifestação da sua sanha por agressão - moral, psicológica ou física - o seu instante de maior satisfação. Por isso a necessidade de movimentos fascistas de manterem as minorias sempre coagidas, prontas para servirem de vítimas das suas ações violentas. E por isso o choro desavergonhado, a expressão de criança abandonada, a flagrante covardia exposta, sempre que esse privilégio lhe é tirado.


Esse é o conceito de fascismo. Assim como o nazismo, ele é um certo nível de consciência e conjugado de valores rasteiros, retrógrados, imaturos. E como toda ideologia nefasta, precisa ser combatida em seu conceito, nos seus fundamentos psicológicos e comportamentais mais sutis. Porque o fascismo, assim como o nazismo, existia antes mesmo de ter sido nomeado e batizado e vai continuar existindo e se manifestando no vácuo deixado pela falta de conhecimento, parâmetros e perspectivas de desenvolvimento trazidas pelas transformações sociais. O fascismo é o grito de covardia que o indivíduo produz quando se sente incapaz de confrontar uma nova realidade. 


O VÍRUS É A MENSAGEM

Escrita em Abril de 2021

COMO O CONCEITO FUNDAMENTAL DOS ESTUDOS DOS MÍDIAS PODE NOS AJUDAR A INTERPRETAR UMA REALIDADE SOCIAL

O meio é a mensagem. Diz a primeira lição a ser compreendida por todo e qualquer estudante de comunicação. E a partir dela todo um curso de novas cadeias de leitura da realidade gerando conhecimentos específicos lhes é apresentado, até que ele chegue ao ponto de ser capaz de, não só compreender de forma teórica e prática esse conceito, como também expandi-lo manipulando os conteúdos criados de acordo com cada meio para gerar um efeito específico na recepção.

 

Explicando de maneira simplista essa máxima, ela quer dizer que cada meio de comunicação (ou tecnologia), por si só, determina a natureza das mensagens a serem transmitidas, uma vez que delimitam o formato, a linguagem e a capacidade de alcance que suas informações podem atingir. Ou seja, quando abrimos um livro, ligamos uma televisão ou sintonizamos uma rádio, independente de qual seja a editora, a emissora ou o dail, o que vai determinar a profundidade dos efeitos das informações contidas e a natureza da resposta às mensagens emitidas é o nível de envolvimento que cada mídia inspira nos seus receptores.



Enquanto o texto impresso evoca a linearidade, o senso de individualidade e o olhar analítico, independente do estilo ou do gênero literário; o rádio inspira o sentido tribal, o senso de conectividade comunitária e, como efeito colateral gerado pelo ruído, o olhar superficial diante do que está sendo transmitido. A televisão atual, de som e imagem ultra definidos, vai além neste sentido comunitário e demarca subliminarmente no seu público as divisas e fronteiras simbólicas das classes sociais através da construção da imagem, criando a ideia de status; num impacto semiótico semelhante ao da fotografia, porém, intensificado. E partindo dos efeitos que essas três mídias geraram nas sociedades em que se disseminaram, podemos assumir uma perspectiva através da qual compreender boa parte das transformações sociais atravessadas desde a criação da prensa, passando pela fotografia, o rádio e, posteriormente, o cinema e a TV. Isso porque sequer tocamos no vendaval chamado internet, o mídia devastador, expansor cognitivo, cujos efeitos eu seria incapaz de descrever com precisão uma vez que estamos envoltos no furacão sensorial, psíquico e, por que não, fisiológico, que essa bomba cognitiva de alto poder de disseminação foi capaz de gerar na sociedade globalizada. Tornando impossível descrever seus efeitos com precisão, ao menos por enquanto.

 

Então, voltando à linha central deste artigo, e resumindo essa introdução necessária, cada meio de comunicação ou tecnologia provoca nos receptores e usuários um determinado efeito no padrão mental, na cognição, no comportamento e, consequentemente, na construção de novas mensagens por parte desse receptor, a partir do contato com as mensagens de cada meio. É como se cada mídia despertasse em nós um novo sentido, com o qual temos maior ou menor grau de consciência e, inevitavelmente, controle sobre seus efeitos em nossa forma de apreender a realidade a partir dele.

 

Mas essa mesma leitura dos mídias pode se arrastar para tudo o que existe, uma vez que cada elemento - material ou virtual - carrega uma codificação informativa capaz de receber e transmitir informações de maneira única. O que vai determinar o impacto social de cada elemento, porém, é o seu alcance. Assim, quando um artista, atleta, intelectual, político, entre outras categorias de influenciadores, atinge um certo nível de popularidade capaz de fazê-lo dialogar com um público amplo, eles próprios, se transformam em mídias, dando um caráter individual a qualquer informação que transmitem - apesar de poucos terem consciência desse efeito. E assim criam a sua marca, sua persona, cada qual mais atraente para uma determinada categoria de anunciantes.

 

Levando adiante essa linha, qualquer fato social de grande abrangência e impacto também assume as a face de meio, pelos mesmos motivos. Ou seja, ele se torna um suporte através do qual se propagam mensagens inerentes aos acontecimentos que são desencadeados por esse evento. E quanto maior a escala do fato social, maior é o alcance dessas mensagens. O exemplo mais fácil de ser identificado atualmente, e o ponto no qual eu quero chegar, é a pandemia de Covid-19 que o mundo está atravessando, alguns países na sua fase final, determinada pelo processo de vacinação da população; outros em sua fase intermediária. E uma nação em específico, chamada Brasil, regredindo a um estágio inicial, de picos renovados de mortes e contágios e mínimo alcance da vacinação.



O que não podemos esquecer é que essa não foi a primeira e nem será a última pandemia a assolar a humanidade. E o que devemos trazer à consciência é que a capacidade de multiplicação e transmissão de todos os outros vírus capazes de atravessar fronteiras terrestres, marítimas e continentais foi potencializada por condições sociais e sanitárias específicas. E o que é mais importante: Todas as pandemias nos forçaram a assumir uma nova perspectiva a respeito de práticas de higiene, de relacionamento com o próximo e/ou de atuação no espaço geográfico em que atuamos.

 

Enquanto a Peste Negra deflagrou as péssimas condições sanitárias em que viviam os povos da Europa; a Gripe Espanhola ganhou potencialidade nos hospitais e acampamentos médicos superlotados e com pouca higiene - flagelos da primeira guerra mundial, que fez com que uma gripe se transformasse numa superinfecção. O HIV, por sua vez, obrigou a juventude libertária de meados dos anos 80 em diante a assumir uma nova perspectiva na vivência da sexualidade. E se antes a grande preocupação com o ato sexual era a possibilidade de gravidez ou de adquirir uma IST curável ou tratável, a partir de então, a prática de sexo despretegido trazia consigo a possibilidade de se adquirir uma doença incurável, depredadora do sistema imunológico e, até meados dos anos 90, sem tratamento. Era a promessa de um processo de morte sôfrego e degradante.

 

Os vírus são existências microbiológicas existentes em todo o planeta indistintamente, o que vai determinar o seu grau de nocividade para a vida humana são as práticas comunitárias de cada agrupamento, população, sociedade e civilização adotam culturalmente. Tendo cada qual inerente à sua capacidade de disseminação um contra-efeito prático que cabe somente a nós, seres humanos, manifestar para impedir a sua proliferação.

 

Então, trazendo essa perspectiva para o Covid-19, a mensagem implícita ao vírus foi, desde sempre, um convite ao recolhimento, ao cuidado no interagir interpessoal presencial, na busca de maneiras de impedir a aglomeração de grandes contingentes de indivíduos. Por fim, em seu último estágio, na criação de vacinas para estimular nos seres humanos o desenvolvimento de anticorpos capazes de preparar o sistema imunológico para o combate adequado ao vírus. E as populações que foram capazes de se submeter a essas determinações, à essa mensagem inerente ao Covid, conseguiram atravessar a pandemia sem realmente viver o fator trágico da mesma em grande escala.

 

Os governos que, desde o início, foram capazes de providenciar as condições sanitárias, financeiras e infraestruturais para que coubesse à população apenas seguir as orientações propostas por cientistas, tiveram menos prejuízos financeiros, políticos e sanitários. Na mesma linha, os líderes que foram hábeis em decifrar a mensagem trazida pelo vírus e conduzir suas populações ao período de vacinações sem maiores traumas, idem. Além de terem encurtado o estender da pandemia e neutralizado os seus danos mais graves, a maior de um grande contingente populacional, viram seu capital político se valorizar consideravelmente.

 

E essa leitura não era difícil, o cumprimento prático das orientações contidas na mensagem não era impossível. Mas, no nosso caso, a informação foi não só ignorada como foi agressivamente combatida. E agora cabe à população chefiada por um indivíduo torpe na leitura dos sinais mais óbvios trazidos pela realidade dos acontecimentos, chorar suas perdas, enfrentar sua tragédia social e torcer pela própria sobrevivência no jogo de roleta-russa que virou a interação presencial seguida pela forma como cada sistema imunológico vai reagir ao ser acessado pela cepa do Covid-19 sorteada a cada infecção e/ou reinfecção.

 

A certeza amarga que temos que digerir e ruminar continuamente é a de que o vírus foi, desde sempre, muito claro na mensagem transmitida. E não existe qualquer fator externo que carregue maior responsabilidade pelo que estamos atravessando do que o dirigente máximo do nosso executivo, seguido pela estrutura política e social criada para amparar os seus erros de interpretação e levá-los adiante, nos empurrando para o abismo em que nos encontramos, sem condições de recuar, mas cientes do único caminho possível de ser trafegável para que consigamos alcançar e construir uma condição sanitária menos nociva aos brasileiros.


ANÁLISE: UM LUGAR SILENCIOSO


EXPLORANDO A CARGA DRAMÁTICA PRESENTE EM TODA AUSÊNCIA DE PALAVRAS 

O thriller dirigido e estrelado por John Krasinski  convida o espectador a calar as palavras para que possa descobrir as linguagens passíveis de serem exercitadas através do silêncio e compreender o sentido de viver numa contínua luta pela sobrevivência. 

Navegando pelas várias nuances produzidas pela angústia constante, Um Lugar Silencioso se apresenta como um obra de suspense ininterrupto. Uma vez que a história já se inicia num estado pós-apocalíptico estabelecido, onde os personagens estão imersos do início ao fim da trama em um ambiente de perigo iminente, que pode ser acionado ao menor ruído.

O roteiro escrito por Bryan Woods e Scott Beck conta o drama de uma família americana que tenta sobreviver isolada em uma fazenda, localizada numa cidade americana que, aparentemente, foi dizimada por uma praga alienígena. 

A família Abbot é encabeçada pelos atores Emily Blunt - que atuou em A Garota no Trem, 2016 e Futura Mary Poppins -, e John Krasinski, que também dirigiu Transformers e ganhou fama como ator ao dar vida ao personagem Jim, na versão americana da sucesso britânico The Office. Na trama, eles são Lee e Evelyn Abbot, os pais das três crianças interpretadas pelos atores Millicent Simmonds (Regan Abbot), Noah Jupe (Marcus Abbot) - que atuou em Extraordinário, 2017 - e Cade Woodward (Beau Abbot). 

Desde as primeiras cenas do longa de 90 min é possível identificar o conflito central dos personagens: eles não podem fazer barulho se quiserem ficar vivos, pois é justamente o som que atrai os aliens assassinos contra os quais eles são incapazes de lutar.

Mas com três crianças pequenas e uma mulher grávida prestes a dar a luz, como poderia ser possível não fazer barulho? E o decorrer da trama é basicamente uma dança silenciosa onde os personagens tentam, nem sempre com sucesso, cumprir essa missão.

Quando somos apresentados à família Abbot, eles já estão adaptados à uma crítica realidade. Andam pela própria casa e nos arredores da fazenda pisando sobre trilhas de areia, caminham nas pontas dos pés e utilizam linguagem de sinais para se comunicar, que haviam desenvolvido em um momento anterior aos ataques, para que pudessem se comunicar com a filha mais velha, que é deficiente auditiva. 

Lee Abbot, o patriarca do grupo é quem toma as medidas de segurança para manter todos vivos, está sempre em busca de informações sobre os ataques em outras regiões, tenta estabelecer contato com possíveis sobreviventes, caça e pesca, faz modificações práticas na fazenda em que a família vive para que eles possam monitorar todo o espaço. E está sempre buscando formas de tornar a sobrevivência o mais confortável e o menos incômoda e perturbadora possível, além de estudar meios de ficarem a salvo da ameaça que surge da floresta sempre que é emitido algum barulho. Uma perigo que, ao longo do filme, acaba sendo esclarecido que se trata de aliens de natureza bizarra e medonha, que, aliás, foram desenvolvidos pelo próprio John Krasinski, que trouxe à luz criaturas cheias de dentes, com garras pontiagudas, um ouvido estranhíssimo munido de uma audição superdesenvolvida e, justificando o sensibilidade ao som, incapazes de enxergar.

Um Lugar Silencioso é o tipo de filme que agrada desde o público mais distraído, interessados em conflitos superficiais como Bem X Mal, Humanos X Invasores, até os espectadores mais críticos, que só se satisfazem com histórias carregadas de complexidade, convites à reflexão ou que apresentem uma perspectiva original sobre questões humanas. The Quiet Place trás tudo isso, apresentando um drama que convida a audiência a se manterem calados para que possam experienciar novas formas de interação e, através delas, compreenderem o sentido da vida a partir do mergulho em seus extremos: o constante confronto com a morte.

 


Uma característica importante exposta no filme foi o fato da linguagem de sinais, que era dominada por toda a família num processo de adaptação para que pudessem se comunicar com a filha mais velha, que é deficiente auditiva, assim como a atriz que a interpretou, ter sido um dos fatores que mais contribuíram para que eles conseguissem sobreviver, ao contrário do restante dos habitantes da cidade em que viviam. Mas incapaz de compreender a importância dessa "fraqueza" carregada pela filha, Lee está constantemente buscando meios de criar para ela um aparelho auditivo. O que esclarece uma cerca incapacidade de absorver em definitivo as transformações trazidas pela série de tragédias que se seguiram o surgimentos e a dominação dos Aliens sobre a espécie humana e o espaço terrestre.

E apesar da posição dominante de Lee para a história, a trama em si não seria a mesma sem a performance de Emily Blunt, que foi capaz de despontar nas cenas mais tensas e marcantes do longo, fazendo com a Evelyn se afirmasse no papel de uma líder feminina multifacetada, atuando como mãe, dona de cada e enfermeira, fazendo o possível para atender as necessidades da família apesar das limitações trazidas pela gravidez. Entre as cenas mais agoniantes protagonizadas por Emily Brunt, está a passagem em que sua personagem entra em trabalho de parto no momento em que não tem qualquer companhia e, incapaz de conter um grito de dor causada pelas contrações, acaba atraindo um alien. No desespero da fuga, ela fura o pé em um prego e, num instante de ímpeto, consegue se jogar no banheiro, que faz de abrigo e o local do parto que acaba tendo que fazer sozinha. E sem fazer barulho.

É um filme que mais parece um recorte de um período muito mais extenso do que as lentes poderiam capturar e apesar de oferecer uma dinâmica diferente do que estamos acostumados - pois é natural que, com a gama de tecnologias disponíveis, as produções procurem explorá-las ao máximo -, Um Lugar Silencioso abre mão dos diálogos, deixando para a fotografia e os efeitos sonoros a missão de manter os espectadores atentos e, por que não, já que estamos falando de suspense, carregados de angústia. Mas, apesar da aparente limitação trazida pelo conflito central da trama, a boa notícia é que essa missão é cumprida. O filme, cuja maioria das cenas transcorrem no silêncio, torna o espectador um pouco mais conectado com a história a cada novo ruído. Que acabam se transformando em gatilhos, servindo de pontos de partida para sequências assustadoras.

Como em todos os formatos de comunicação e expressões artísticas, existem produções cinematográfica que, apesar de qualquer apelo sensacionalista e dos efeitos dramáticos que servem para estruturar cada roteiro, carregam em sua síntese um profundo questionamento e exercício filosófico. Infelizmente não é algo comum entre os lançamentos contemporâneos e, mesmo quando ocorrem, muitas vezes pecam pela falta de atratividade e apelo massivo. Ainda assim, vez por outra, roteiro, diretor e produção atingem um certo nível de harmonia capaz de gerar filmes interessantes, questionadores, emocionantes e chocantes, tudo ao mesmo tempo e em perfeita sintonia. 

Trazendo reflexões importantes acerca do modelo de adaptação e domínio da raça humana sobre o planeta Terra, por mais que, num primeiro relance o espectador não seja capaz de captar esse ponto de vista, ele dificilmente vai alcançar o fim do filme sem atingir a conclusão de que, ao falar de uma peste assolando as sociedades contemporâneas, a obra também está se referindo à raça humana, numa alternância de perspectivas que, invariavelmente, nos faz trocar de lugar com outras espécies de animais que sequer foram mencionadas na obra, mas que foram extintas graças à maneira agressiva com que a humanidade dominou a superfície da Terra.

O drama consegue convidar os espectadores a, subliminarmente, pensarem sobre a cognição - o processo pelo qual absorvemos e aplicamos conhecimentos -, sobre o exercício dos sentidos - uma vez que os personagens se veem obrigados a abrir mão da fala ou qualquer outra linguagem que manipule ruídos -, e o que é melhor: as estruturas ideológicas de domínio da raça humana sobre a superfície da Terra. E com isso eu não estou falando de qualquer valor abstrato, pelo contrário, os sistemas bombardeados pelo filme é nada mais nada menos que o sentido de territorialidade -, desde uma perspectiva mais vasta, envolvendo cidades e nações, até a mais particular, envolvendo propriedades pessoais -, e instituições como família, religião e sociedade, que são reduzidos à sua essência mais elementar: um grupo de indivíduos que se unem para lutar pela sobrevivência juntos, numa mútua troca de apoio, tendo como objetivo comum a manutenção da espécie.

Apresentando um óbvio contraponto ao mundo tecnológico e individualista que vivemos atualmente, Um Lugar Silencioso presenteia a plateia com a perspectiva de que somente a união, simbolizada pela família, e o silenciar dos conflitos, muitas vezes provocado pelo excesso de palavras ditas sem a devida reflexão, podem nos preservar em um estado de calamidade crítica. E analisando a obra a partir de seus valores mais fundamentais, podemos entender a escolha de Krasinski em contracenar com sua esposa, Emily Blunt. Oferecendo ao público uma sintonia genuína que extrapola os limites da representação. 

Quanto à atuação dos filhos do casal, cumprem o seu papel de coadjuvantes e motores que impulsionam seus pais a darem o melhor de si para garantir a sobrevivência da prole, uma vez que precisam conviver com a perturbadora certeza de que a vida de seus filhos está em risco iminente e contínuo, em meio a uma realidade que facilmente pode ser confundida com um pesadelo sem fim.

 

PRIME EDITING: ATUALIZANDO A ENGENHARIA GENÉTICA


A cada novo avanço da ciência e da tecnologia, podemos perceber que a nossa evolução é tão dependente do mergulho nos micro-universos que compõem o mundo em que nós vivemos quanto do desbravar das fronteiras e territórios que limitam o nosso alcance. E se uma direção nos apresenta novos desafios e paradigmas filosóficos e existenciais, expandindo nossos horizontes cognitivos; a outra apresenta respostas para questões e obstáculos internos e intrínsecos ao nosso corpo e composição física, que podem se apresentar como inimigos poderosos na continuidade de nossas vidas e na caminhada evolutiva da espécie humana.


Enquanto a busca por novos horizontes na terra, no mar e no espaço revelaram, conquista após conquista, o quanto a humanidade tende a perder o protagonismo da própria existência conforme o seu olhar se expande; numa estranha contrapartida, as descobertas feitas no mundo micro, nano, atômico e agora quântico, revelam um universo superpopuloso existindo e se expandindo no interior de cada indivíduo. E assim como as ameaças do mundo externo podem pôr em cheque a continuidade de uma pessoa, uma população ou toda a humanidade, o mesmo risco, em grau equivalente, reside na estrutura molecular presente em cada célula do indivíduo.


É uma perspectiva um tanto perturbadora, é verdade. Mas da mesma forma que existem correntes científicas que se dedicam à compreensão do espaço que nos cerca na busca por caminhos, mecanismos e tecnologias que nos garantam uma vida mais segura, tantas outras estão voltadas para a resolução de problemas e enigmas que o nosso micro-universo interior tem nos apresentado ao longo de nossa jornada evolutiva.


Então, se alguém chegasse para um cidadão vivendo na passagem do século XIX para o século XX e dissesse que dentro de algumas décadas seria possível voar por todo o globo através de máquinas que cruzavam os céus carregadas de passageiros de todas as nacionalidades, essa pessoa provavelmente seria vista, no mínimo, como uma visionária exuberante.




Agora, imagine você: viver em um mundo onde, independente da sua predisposição genética para qualquer que seja o grupo de doenças, existe uma técnica que pode antever e evitar 89% das patologias já conhecidas pela humanidade apenas corrigindo moléculas de DNA. Sem cortes, livre de altas doses de medicamentos ou qualquer tipo de tratamento agressivo. E mesmo que as doenças se manifestem, bastaria que o paciente passasse por uma máquina que localiza, isola e troca a seção defeituosa do genoma para que os sintomas começassem a regredir até desaparecer.


Parecem cenas de uma realidade futurista comum nos filmes de ficção científica, não é mesmo?


Mas, acredite você ou não, esse procedimento existe, suas pesquisas estão em fase avançada de desenvolvimento e em breve prometem revolucionar não só o campo da Engenharia Genética como o exercício da medicina como conhecemos até os dias de hoje.


A técnica, de apresentação quase milagrosa para um olhar leigo, se chama Prime Editing - que pode ser traduzida para o português como Edição de Qualidade -, foi idealizada pelo engenheiro genético Andrew Anzalone, em 2017, durante a conclusão de seu doutorado na Universidade de Columbia. Mas só foi concebida enquanto estudo prático no laboratório do biólogo químico David Liu, que, por sua vez, já havia conquistado fama por ter participado do desenvolvimento do Método Crispr/Cas9 - do qual vamos falar mais à frente. O Prime Editing consiste em identificar o erro genético responsável pelo desenvolvimento e a manifestação de cada doença e, em seguida, vasculhar o DNA em busca das letras ou das seções defeituosas do genoma. Depois de localizado, o segundo passo é apagar este erro e inserir no seu lugar uma sequência de letras livre de qualquer anomalia.


Até o atual momento, o estudo foi testado apenas para identificar e curar doenças no sangue, como a Anemia Falciforme ou mesmo a Leucemia. Porque nesses casos, a medula óssea pode ser removida, "editada" e colocada de volta. Pois o maior desafio para a utilização do Prime Editing como tratamento clínico aplicável em um maior número de doenças é justamente a falta do equipamento molecular capaz de localizar as células corretas a serem alteradas no corpo. Porque, como tudo nesse mundo tem dois lados, se a técnica da edição genética for aplicada na célula ou na seção errada, ou seja, num trecho saudável do DNA, pode gerar anomalias e malformações tão diversas e complicadas que nem mesmo os cientistas podem prever as consequências finais. No chamado Efeito Frankenstein.


Porém, não obstante dessa realidade futurista, a Crispr/Cas9, outra técnica de manipulação do genoma, que precedeu o desenvolvimento do Prime Editing, vem sendo usada por médicos chineses para tratar quadros patológicos avançados e de difícil reversão. Conhecido somente como Método Crispr, esse procedimento tem uma aplicação muito semelhante ao Prime Editing, pois consiste em cortar o trecho do DNA responsável pela deformação genética e, consequentemente, a manifestação da doença, e no lugar dele inserir um novo fragmento, livre dessa alteração. Promovendo uma mutação genética que no curso natural do desenvolvimento humano pode levar gerações para se estabelecer, ou mesmo nunca acontecer.


O grande risco do Método Crispr, porém, é o mesmo apresentado por qualquer outra manipulação de genes: a criação de uma mutação inesperada, desconhecida, impassível de ser corrigida novamente e que poderá passar para as gerações seguintes.


Um exemplo desses "resultados não calculados" foi o que aconteceu na última vez, que se tem notícias e registros, em que o Método Crispr foi utilizado. Durante o tratamento de um paciente portador do HIV e da Leucemia. Nesse experimento, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine, a equipe liderada por Hongkui Deng, da Universidade de Pequim, copiou os genes de indivíduos saudáveis e com resistência natural ao HIV que já haviam doado células para curar outros portadores da doença, e editaram o gene defeituoso do paciente soropositivo com leucemia para atuar como uma cópia dos genes resistentes. Como resultado, a equipe teve o câncer "corrigido", já que a doença entrou em remissão após o experimento. Mas o vírus do HIV permaneceu no DNA do paciente, porque os genes alterados correspondiam de 5% a 8% do total de células sanguíneas contaminadas.


É justamente essa falta de precisão o Calcanhar de Aquiles do Método Crispr, cuja falha foi perseguida e contornada pelos desenvolvedores do Prime Editing, que é basicamente a "versão atualizada" do Método Crispr.


Para que possamos entender a diferença entre ambos, vamos pensar em um livro muito extenso, de cerca de 3.000 páginas - o que comparado ao DNA humano, que contém três bilhões de letras, ainda pode ser considerado curto. E para encontrar uma única palavra com erro nesse imenso texto, enquanto o Método Crispr faz uma busca manual, o Prime Editing tem o comando Ctrl+F - capaz de fazer uma varredura minuciosa e precisa no conteúdo do livro em busca da palavra errada e, indo além, em todas as repetições desse erro. Outra diferença definitiva se apresenta no momento da "correção" dos defeitos genéticos. Enquanto o Método Crispr retira os trechos defeituosos do DNA para devolvê-los corrigidos em um segundo momento, o Prime Editing é capaz de promover uma correção automática onde, ao mesmo tempo em que as letras contendo erro são retiradas, outras letras com a codificação correta vão sendo postas em seus lugares.


Se você leu até aqui, mas ainda tem dúvidas em relação às duas técnicas e suas diferenças, vamos então explicar um pouco sobre a estrutura que forma o DNA e o modelo de ação de cada um dos procedimentos na correção das anomalias genéticas.


O DNA é uma molécula que está presente no núcleo de quase todas as células de quase todos os seres vivos. E é formada por três substâncias químicas:


Pentose, Fosfato e as Bases nitrogenadas - que são os famosos pares de A-T e C-G - Adenina com Timina; Citosina com Guanina. Juntos, esses três componentes são responsáveis por carregar todas as nossas informações genéticas.


A estrutura física do DNA é composta por duas fitas em formato de espiral, chamadas de dupla hélice, que se contorcem uma sobre a outra e se unem através das pontes de hidrogênio que, por sua vez, são formadas pelos pares das bases hidrogenadas A-T e C-G. A ordenação das sequências desses pares que unem a dupla hélice são chamadas de Genes. Neles está contida toda a hereditariedade que a vida traz consigo, desde as características de cada espécie até as informações que distinguem o DNA de cada indivíduo.


Indo adiante na explicação, as sequências de Genes, por sua vez, formam os cromossomos. Os seres humanos, por exemplo, possuem quarenta e seis cromossomos, vinte e três da mãe e vinte e três do pai. Ou seja, são quarenta e seis sequências de milhões de genes diferentes. O que faz com que cada DNA carregue em si cerca de três bilhões de letras, numa codificação original para cada pessoa, ou ser vivo.


Para se ter uma ideia da quantidade de informação que uma molécula de DNA guarda, foi comprovado que ela está em um formato tão comprimido no núcleo das células que se fossem esticadas poderiam alcançar até dois metros de comprimento.


Entendido essa parte, vamos agora mostrar como o Método Crispr e o Prime Edition se diferenciam.


O Método Crispr consiste em cortar a dupla hélice do DNA e através desse corte trazer consigo as sequências de genes defeituosos. Em seguida os defeitos são editados para que depois o trecho corrigido seja recolocado no mesmo lugar. A grande complicação está no fato de que, no intervalo entre Cortar, Editar e Colar, o DNA possa acionar inúmeros mecanismos de reparos intrínseco ao seu funcionamento. Então, pode acontecer de, no momento em que a sequência que foi cortada for devolvida à molécula, ela já não encontre a mesma codificação que existia quando foi extraída, gerando um resultado inesperado que pode dificultar, ou mesmo pôr a perder, todo o processo de edição controlado, e de cura, proposto pelo método. Além disso, o Método Crispr não é capaz de atuar em letras isoladas do código genético, apenas em seções. Ou seja, o Crispr/Cas9 trás consigo uma carga de possibilidade de erro que é muito difícil de ser ignorada.


O grande avanço que o Prime Editing apresenta é a capacidade de, antes mesmo de acessar a estrutura do DNA para editar as sequências com códigos defeituosos, levar consigo a codificação correta e, à medida que é feita a retirada da seção defeituosa, ocorre simultaneamente a troca pela codificação livre de anomalias. Além do mais, a precisão do Prime Editing é tamanha que o método é capaz de alterar apenas letras isoladas, sem que seja necessário a modificação de seções de Genes.


Mas então, o que está faltando para que o Prime Editing possa ser utilizado como uma tecnologia disponível para o tratamento de doenças e distúrbios genéticos?


Conforme afirmam os responsáveis pelo projeto, a técnica foi desenvolvida, porém, os equipamentos capazes de suportar as especificações e atender aos comandos necessários para a aplicação do método ainda não foram criados. É como se os cientistas soubessem onde querem chegar, mas ainda não pudessem percorrer o caminho, devido à falta de um transporte seguro. Dessa forma, eles sabem o que fazer para corrigir 89% das 75 mil doenças passíveis de serem transmitidas hereditariamente, uma vez que já identificaram os genes responsáveis pelo defeito nas células, assim como a versão corrigida para cada um desses defeitos. Mas lhes falta o mecanismo tecnológico, o que requer altos montantes de investimentos. Nos testes feitos com a tecnologia disponível atualmente, a equipe responsável foi capaz de corrigir as mutações que provocam a Anemia Falciforme, Fibrose Cística, a doença de Tay Sachs, entre outras.


O que podemos ter como certo é que para que todos esses avanços possam estar disponíveis à grande população é apenas uma questão de tempo. E por mais que possam parecer iniciativas otimistas e visionárias demais no momento, é sempre bom lembrarmos que muitas das doenças que hoje entendemos como distúrbios passageiros na saúde, curáveis ou controláveis através de tratamento, como a Tuberculose ou o Diabetes, há um século eram vistas como uma condenação de morte. Então, é muito provável que muitas das doenças que hoje amedrontam e apavoram a população, em algumas décadas possam ser tratadas a partir de uma simples e rápida edição dos genes defeituosos responsáveis pelo funcionamento incorreto das células envolvidas.

ANÁLISE: DE VOLTA PARA O FUTURO

SIMPLIFICANDO O IMPOSSÍVEL ATÉ TORNÁ-LO INEVITÁVEL


Lançado em meados dos anos 80, a comédia com temática de ficção científica dirigida por Steven Spielberg despontou como um dos maiores sucessos comerciais de sua década e inaugurou, no público e no cinema, um novo leque de possibilidades para filmes com temática futurista. 


Mais do que pela obra em si, o filme nos impacta pelas questões que ele desperta e alimenta dentro de nós. Da nossa relação com o passado e o quanto que os acontecimentos sucedidos interferem diretamente na nossa atualidade; assim como as projeções de futuro determinam nosso comportamento no agora. São reflexões que fazem com que a saga, apesar de ser uma superprodução voltada para a diversão e o entretenimento, consiga cumprir com a principal função de um obra de arte: oferecer novas perspectivas a partir das quais interpretar os fatos da vida. E De Volta Para o Futuro assume esse papel de maneira eficiente e agradável, sem parecer chato ou tendencioso. Tudo acontece naturalmente, como se esses tópicos sempre existissem dentro de nós, mas preferimos ignorá-las por parecerem enfadonhos e impraticáveis. 


Desde os primeiros minutos de filme, somos capturados pela atmosfera familiar - já que o protagonista carrega características comuns a todo adolescente de sua época e idade -, mas quando menos esperamos, estamos submersos em uma saga de ficção científica de cunho filosófico. Sim, isso mesmo. Por trás de todos os efeitos especiais produzindo cenas impressionantes, para a época, e dos diálogos originais e afiados, há uma carga metafísica que desperta paradigmas existenciais que sempre intrigaram a humanidade. 


E o que é melhor: com um roteiro que consegue trazer complexas teorias da física para uma perspectiva simplista e vulgar, enquanto aciona na nossa cognição um novo plano, infinito em possibilidades, sobre o qual libertar nossos pensamentos. Avançar ou recuar no tempo, interferir no futuro ou no passado. Avaliar as consequências de nossas ações a longo prazo. Assistir aos acontecimentos pretéritos que construíram o nosso presente; inaugurar linhas temporais paralelas, capazes de produzir mudanças na atualidade dos personagens. Entre tantas outras possibilidades e paradoxos que, inevitavelmente, hipnotiza qualquer indivíduo com um mínimo de relação com calendários e ávidos por um brecha através da qual burlar esse movimento temporal constante e linear que nos carrega adiante na vida. 




Ou seja, são questões de ordem interna, mas que, de alguma forma, se relacionam com mecanismos práticos. E todo o filme gira em torno dessa conversa entre as ferramentas materiais sendo manipuladas para atender ambições intelectuais.


O filme conta a história de Marty McFly, um adolescente americano típico morador da cidade fictícia de Hill Valley, um lugarejo pacato e ordeiro. As características da personalidade de Marty, a princípio, não produzem qualquer estranhamento no público, pois ele foi desenvolvido justamente para produzir reconhecimento imediato. McFly é guitarrista de uma banda de rock, apaixonado por skate e namorado de uma linda jovem. Marty é agitado e um tanto rebelde, por conta desse ar vanguardista tem uma relação instável com os pais, pois os considera caretas, e, pelo mesmo motivo, é perseguido pelo diretor e pelos professores de sua escola. Sua família é formada por uma mãe emocionalmente instável e alcoólatra, insatisfeita com o casamento; seu pai é um profissional mal sucedido na carreira que vive sofrendo abuso e exploração do seu chefe arrogante e intransigente; enquanto seus irmãos, aparentemente, não passam de dois inúteis.


O caráter incomum do protagonista vem do fato dele manter uma amizade com um cientista bem mais velho, o caricato Doutor Emmet L. Brown. Um personagem sonhador, futurista e idealista o suficiente para despender toda a fortuna de sua família e três décadas de sua vida na construção e conclusão do seu maior empreendimento científico: a geringonça tecnológica batizada de Capacitador de Fluxo, criada a partir da estrutura de seu valioso Delorean. Segundo Doutor Brow, aquele maquinário seria capaz de possibilitar a viagem no tempo. Não à toa, foi criada a partir de um delírio que teve após levar uma pancada na cabeça, onde pôde contemplar o resultado final, talvez em outro período de tempo, da criação que ele estava prestes a concluir com sucesso.


McFly, quando foi apresentado ao modelo final do Capacitador, não levou fé nas verdadeiras possibilidades do que estava testemunhando. Enquanto o doutor Brown garantia, no seu linguajar científico de ritmo acelerado, que aquele carro estava adaptado para funcionar como uma máquina do tempo que seria capaz de fazê-los viajar para o passado e para o futuro sempre que quisessem. Para comprovar a eficiência do dispositivo alimentado por plutônio, um elemento radioativo e proibido de ser comercializado, Doutor Brown fez uma viagem inaugural utilizando seu cachorro, Einstein, como cobaia. Depois de observarem o carro desaparecer diante de seus olhos para reaparecer alguns minutos depois no mesmo ponto, estava comprovado que o veículo conseguiu viajar até o futuro e retornar com sucesso. A partir dali o Doutor se sentiu ainda mais encorajado a se aventurar numa viagem temporal. Tudo estava certo para que ele realizasse o seu sonho de visitar o futuro quando a dupla foi surpreendida por um grupo de terroristas líbios armados, que foram cobrar o plutônio roubado por Emmet para ser revertido em combustível. 


O desenrolar dessa cena deflagra toda a série de conflitos a serem solucionados ao longo do filme, quando McFly se vê forçado a embarcar no carro para uma viagem ao passado com a intenção de evitar um assassinato.


Entre as referências fotográficas mais sugestivas, podemos apontar a primeira cena do filme, quando somos recebidos dentro do universo da trama através de um quarto tomado por relógios de incontáveis modelos e estilos diferentes. Todos barulhentos o suficiente para produzir um ambiente cujo confronto e desconforto com o tempo é inevitável. Outra de afirmação da mensagem foi quando o grande relógio da torre de Hill Valley quebrou, e uma mulher, também tomada pela urgência, recolhia donativos das pessoas na rua para financiar o concerto.


Ao longo de todo o filme os relógios e os calendários pontuam as cenas mais marcantes, como se a direção quisesse a todo tempo reforçar a relação da compreensão de tempo com a contagem das horas e dos anos, uma associação que, a nível cognitivo, atua continuamente nas nossas percepções; mas, a nível metafísico e, consequentemente, inconsciente, a noção do tempo como uma força linear e incorruptível nem sempre é uma regra. Porém, o filme fez questão de propor essa ligação para, pôr sobre ela, apresentar uma importante ruptura na ordem natural da vida e dos acontecimentos. Numa violação da nossa noção básica de tempo-espaço que, se não fosse a todo tempo lembrada, talvez não nos impressionasse tanto.  


Um conflito que não pode ser esquecido como um retrato insólito em meio a um cenário que, por si só, é de natureza incomum e bizarra, é a paixão que a mãe de McFly sente por ele, quando o conhece durante a incursão do protagonista no passado. É claro que a personagem não tinha qualquer desconfiança de quem o rapaz se tratava, pois àquela altura do filme, ele era apenas um jovem da sua idade, a quem achou atraente. Porém, apesar deles beirarem uma relação incestuosas - que sequer poderia ser chamada assim, uma vez que a única pessoa realmente disposta a iniciar a relação, Lorraine McFly, não tinha consciência do nível de proximidade que havia entre Marty e ela. A postura apavorada e esquiva de Marty tratou de eliminar qualquer sensação desconfortável na platéia e transformar a paixonite de Lorraine pelo jovem que viria a ser seu filho no futuro, em passagens recheadas de humor.


A saga De volta para o futuro é a prova de que comédias também podem propor perspectivas e reflexões profundas, neste caso, de cunho existencialista. Por mais que, geralmente, tendem a exigir do público um olhar analitico na leitura das mensagens subjetivas e apático para com os efeitos, tiradas e recursos cômicos mais gritantes e superficiais do filme. O que muitas vezes podem se apresentar como armadilhas; não para o público, mas para os roteiristas e produtores, pois a possibilidade das mensagens de segundo plano permanecerem despercebidas é sempre muito grande. Por mais que elas atuem ininterruptamente no subconsciente dos espectadores. Pois muitas pessoas não percebem que a estrutura principal na criação de qualquer narrativa é justamente o plano teórico. Elas seriam as vigas que sustentam os conflitos e as cenas que servem de plano de atuação para os personagens. Então, quanto mais ambiciosa for a história, mais profundas e robustas essas vigas precisam ser. E a incapacidade dos escritores e roteiristas de compreenderem essa relação é o que faz com que produções realmente hilárias se transformem em um mero instante de distração que serão esquecidas algumas horas depois da exibição ou sequer serão capazes de manter o público conectado às cenas por muito tempo.


De Volta para o Futuro não se enquadra nessa categoria. O filme, além de ser divertido e engraçado, também provoca a imaginação dos espectadores, que inevitavelmente se colocarão a projetar possibilidades de futuro a partir dos elementos que podemos encontrar no presente, e, o que é melhor, voltar o olhar para o passado a fim de compreender os movimentos que construíram nossa atualidade.


Sendo assim, podemos dizer que a trilogia cumpriu o seu papel em vários níveis diferentes. Foi um investimento bem sucedido, divertiu o público e foi capaz de transmitir uma mensagem fundamental rica de significados. Pois quando nos propomos a imaginar e projetar cenários e períodos futuros, ou mesmo analisar as passagens que nos trouxeram até este ponto da história, estamos praticando um exercício filosófico que nos faz pensar e observar nossa atualidade com um olhar crítico, construtivo e a partir de múltiplas perspectivas, o que atua no sentido contrário a qualquer tipo de preconceito. Uma atividade importante e da qual estamos carentes nos dias de hoje. Porém, nada que uma superprodução do passado não possa nos ajudar a resgatar.

 

O EaD E A DEMOCRATIZAÇÃO NO ACESSO À EDUCAÇÃO

FACILIDADE DE INGRESSO, PREÇOS ACESSÍVEIS E FLEXIBILIDADE DE HORÁRIOS ESTÃO ENTRE OS PRINCIPAIS FATORES QUE CONTRIBUÍRAM PARA A ALAVANCADA DO ENSINO À DISTÂNCIA NO BRASIL. 


Criado pelas universidade particulares de formato de ensino tradicionais visando justamente a diminuição dos custos operacionais, refletindo em mensalidades mais acessíveis, e alavancado pela crise na educação em decorrência da pandemia do Covid-19, o Ensino à Distância caminha para se transformar no principal formato de formação educacional, considerando os números nacionais. E quando comparamos o EaD com o modelo de ensino tradicional, salta a questão geográfica, um fator que sempre foi determinante no acesso ao ensino de qualidade no Brasil. Pois, se um curso tradicional, com disciplinas lecionadas por professores em salas de aulas, exige que os alunos tenham certa proximidade física às instituições de ensino, no EaD, o mesmo conteúdo pode ser direcionado para indivíduos de todo um estado, país ou mesmo para todo o globo. Pois as disciplinas são capazes de estar onde a internet também está; ou seja, disseminada pelo mundo.



Considerando ainda a facilidade de ingresso e a redução de custos com material didática, entendemos que o crescimento do formato foi apenas um caminho natural em meio a um mercado pautado pela busca ao fácil acesso. Confirmando essa tendência, os indicadores da pesquisa realizada pela Abed (Associação Brasileira de Educação a Distância) em todo o território nacional antes mesmo do início da pandemia da Covid-19 apontam uma expansão considerável não só do modelo de educação em si como do EaD em relação aos formatos presenciais. O número de cursos totalmente à distância disponíveis, por exemplo, aumentou 52% entre os anos de 2017 e 2018 - quando foi realizado o último Censo no setor. Quanto ao número de alunos matriculados, o crescimento também é acentuado, com um aumento de 28%.


Outro avanço importante está no aumento do números de vagas disponíveis, pois, enquanto o modelo presencial conta com 6,3 milhões de cadeiras, o EaD apresenta 7,1 milhões. Indicando que o setor tende a não só crescer, como se sobrepujar ao ensino presencial e se apresentar como um importante aliado no processo de democratização do acesso à educação superior e especializada.


















O CRESCIMENTO DO ENSINO À DISTÂNCIA NO BRASIL


O Ensino à Distância, um modelo de educação que foi inserido e desenvolvido no Brasil através dos cursos tradicionais, visando baratear os custos com o ensino de disciplinas de grande abrangência, deixou de ser visto como uma alternativa secundária para ser adotado como modelo de formação efetivo. Atualmente são oferecidos mais de vinte mil cursos, entre livres e corporativos, através desse formato.


Segundo dados publicados no último Censo da Adeb (Associação Brasileira de Educação a Distância), que considerou números nacionais entre os anos de 2017 e 2018, houve um aumento de 52% na oferta de cursos à distância. Uma oferta que tende a aumentar consideravelmente, uma vez que o MEC dobrou o limite de carga horária a ser cumprida à distância no ensino superior, passando de 20% para 40% de todo o conteúdo dos cursos. E quando avaliamos o alcance do EaD entre as formações livres, aquelas voltadas para o desenvolvimento pessoal ou aperfeiçoamento profissional, o alcance do formato de ensino avançou até os impressionantes 16.000 cursos, com mais de 3,8 milhões de alunos matriculados. Entre os cursos superiores de carga horária totalmente cumpridas à distância, o país conta com 4.570 cursos com mais de 1,3 milhões de alunos matriculados.


Avaliando o crescimento gradativo e acentuado desse modelo de ensino, podemos concluir que a tendência do sistema educacional, como um todo, é cada vez mais explorar as facilidades oferecidas pelo EaD, uma vez que, pelo primeira vez desde o surgimento do setor, o número de cursos à distância superou o de cursos presenciais, confirmando as suspeitas de que este poderá ser o formato padrão de ensino no país num futuro próximo.



OS BENEFÍCIOS DO ENSINO À DISTÂNCIA


Com o crescimento do EaD não podemos mais olhar para esse formato de educação como um modelo alternativo. E se você tem interesse em recorrer ao EaD, seja pela indisponibilidade de tempo ou pelo fato de morar ou trabalhar muito longe de qualquer instituição de ensino, vamos abordar seus benefícios em relação ao modelo presencial.


O primeiro ponto a ser mencionado é a possibilidade de determinar o horário e o local de estudo. Pois sabemos que, no ensino presencial, é necessário estar num determinado local e num determinado horário para acompanhar as aulas; enquanto que no EaD o aluno determina o horário em que vai estudar, assim como escolhe o ambiente que vai utilizar como espaço de estudo. O que nos leva a outro fator importante, a ausência de distrações. O problema que é recorrente nas salas de aulas, no EaD é totalmente superado, uma vez que os alunos estudam em recolhimento e, o que é melhor, pelo tempo que achar necessário.


Partindo para o lado financeira, vemos que os cursos de EaD se destacam pelos preços mais acessíveis, além do seu conteúdo ser disponibilizado em formato digital, o que faz com que os custos relacionados à compra de material didático sejam eliminados. Assim como os gastos com locomoção.


Porém, apesar das inúmeras vantagens, não podemos esquecer que optar pelo EaD exige disciplina e organização. Pois, ingressar em cursos não presenciais significa assumir uma parcela importante da função dos professores, que é cobrar respostas, trabalhos e desempenho dos alunos. Então, antes de iniciar qualquer estudo através de mecanismos digitais e online, esteja certo de que você está mesmo disposto a se dedicar e exigir o melhor de si. Para que o sonho de uma nova formação não se perca pela falta de comprometimento.



“CAIXA-PRETA DO BNDES” O GOVERNO GASTOU 48 MILHÕES PARA INVESTIGAR UMA FAKE NEWS

INVESTIGAÇÃO BASEADA EM DISCURSO DE CAMPANHA DE BOLSONARO GASTOU MILHÕES DOS COFRES PÚBLICOS. POR FIM, DESCOBRIU-SE QUE ERA APENAS MAIS UMA NOTÍCIA FALSA

Ao longo da última campanha presidencial, o então candidato Jair Bolsonaro conseguiu angariar milhões de votos utilizando o argumento de que “A caixa-preta do BNDES” precisava ser aberta. Segundo suas “suspeitas”, uma investigação revelaria a utilização de dinheiro público para alimentar esquemas de corrupção.


Depois das eleições, seja visando confirmar a desconfiança ou apenas para justificar a promessa de campanha, foi feita uma extensa auditoria nas operações do banco estatal. E após analisarem negociações realizadas entre 2005 e 2018 do banco e a empresa J&F, administrada por
Joesley e Wesley Batista, o escritório de advocacia americano constatou: 


“As decisões do banco parecem ter sido adotadas após considerações de diversos fatores negociais relevantes e ponderações dos riscos e potenciais benefícios para o banco.”


Ou seja, não houve irregularidades.


Arthur Koblitz, presidente da Associação dos Funcionários dos BNDES, aproveitou para sublinhar que o resultado da auditoria reforça os dados apurados em CPI’s sobre o BNDES, assim como comissões de apuração interna.


Para o ex-presidente da instituição, Luciano Coutinho, réu em uma denúncia do Ministério Público que apura as relações entre o banco e o frigorífico dos Irmãos Batista: “Vivemos um período complicado no Brasil, em que alguns direitos fundamentais da cidadania foram atropelados em processos em que a presunção de culpa substituiu a presunção de inocência.”


os escritórios de advocacia Levy & Salomão e Cleary, Gottlieb Steen & Hamilton, com sedes no Rio e em Nova York, foram os responsáveis pela auditoria.