EXPLORANDO A CARGA DRAMÁTICA PRESENTE EM TODA AUSÊNCIA DE PALAVRAS
O thriller dirigido e estrelado por John Krasinski convida o espectador a calar as palavras para que possa descobrir as linguagens passíveis de serem exercitadas através do silêncio e compreender o sentido de viver numa contínua luta pela sobrevivência.
Navegando pelas várias nuances produzidas pela angústia constante, Um Lugar Silencioso se apresenta como um obra de suspense ininterrupto. Uma vez que a história já se inicia num estado pós-apocalíptico estabelecido, onde os personagens estão imersos do início ao fim da trama em um ambiente de perigo iminente, que pode ser acionado ao menor ruído.
O roteiro escrito por Bryan Woods e Scott Beck conta o drama de uma família americana que tenta sobreviver isolada em uma fazenda, localizada numa cidade americana que, aparentemente, foi dizimada por uma praga alienígena.
A família Abbot é encabeçada pelos atores Emily Blunt - que atuou em A Garota no Trem, 2016 e Futura Mary Poppins -, e John Krasinski, que também dirigiu Transformers e ganhou fama como ator ao dar vida ao personagem Jim, na versão americana da sucesso britânico The Office. Na trama, eles são Lee e Evelyn Abbot, os pais das três crianças interpretadas pelos atores Millicent Simmonds (Regan Abbot), Noah Jupe (Marcus Abbot) - que atuou em Extraordinário, 2017 - e Cade Woodward (Beau Abbot).
Desde as primeiras cenas do longa de 90 min é possível identificar o conflito central dos personagens: eles não podem fazer barulho se quiserem ficar vivos, pois é justamente o som que atrai os aliens assassinos contra os quais eles são incapazes de lutar.
Mas com três crianças pequenas e uma mulher grávida prestes a dar a luz, como poderia ser possível não fazer barulho? E o decorrer da trama é basicamente uma dança silenciosa onde os personagens tentam, nem sempre com sucesso, cumprir essa missão.
Quando somos apresentados à família Abbot, eles já estão adaptados à uma crítica realidade. Andam pela própria casa e nos arredores da fazenda pisando sobre trilhas de areia, caminham nas pontas dos pés e utilizam linguagem de sinais para se comunicar, que haviam desenvolvido em um momento anterior aos ataques, para que pudessem se comunicar com a filha mais velha, que é deficiente auditiva.
Lee Abbot, o patriarca do grupo é quem toma as medidas de segurança para manter todos vivos, está sempre em busca de informações sobre os ataques em outras regiões, tenta estabelecer contato com possíveis sobreviventes, caça e pesca, faz modificações práticas na fazenda em que a família vive para que eles possam monitorar todo o espaço. E está sempre buscando formas de tornar a sobrevivência o mais confortável e o menos incômoda e perturbadora possível, além de estudar meios de ficarem a salvo da ameaça que surge da floresta sempre que é emitido algum barulho. Uma perigo que, ao longo do filme, acaba sendo esclarecido que se trata de aliens de natureza bizarra e medonha, que, aliás, foram desenvolvidos pelo próprio John Krasinski, que trouxe à luz criaturas cheias de dentes, com garras pontiagudas, um ouvido estranhíssimo munido de uma audição superdesenvolvida e, justificando o sensibilidade ao som, incapazes de enxergar.
Um Lugar Silencioso é o tipo de filme que agrada desde o público mais distraído, interessados em conflitos superficiais como Bem X Mal, Humanos X Invasores, até os espectadores mais críticos, que só se satisfazem com histórias carregadas de complexidade, convites à reflexão ou que apresentem uma perspectiva original sobre questões humanas. The Quiet Place trás tudo isso, apresentando um drama que convida a audiência a se manterem calados para que possam experienciar novas formas de interação e, através delas, compreenderem o sentido da vida a partir do mergulho em seus extremos: o constante confronto com a morte.
Uma característica importante exposta no filme foi o fato da linguagem de sinais, que era dominada por toda a família num processo de adaptação para que pudessem se comunicar com a filha mais velha, que é deficiente auditiva, assim como a atriz que a interpretou, ter sido um dos fatores que mais contribuíram para que eles conseguissem sobreviver, ao contrário do restante dos habitantes da cidade em que viviam. Mas incapaz de compreender a importância dessa "fraqueza" carregada pela filha, Lee está constantemente buscando meios de criar para ela um aparelho auditivo. O que esclarece uma cerca incapacidade de absorver em definitivo as transformações trazidas pela série de tragédias que se seguiram o surgimentos e a dominação dos Aliens sobre a espécie humana e o espaço terrestre.
E apesar da posição dominante de Lee para a história, a trama em si não seria a mesma sem a performance de Emily Blunt, que foi capaz de despontar nas cenas mais tensas e marcantes do longo, fazendo com a Evelyn se afirmasse no papel de uma líder feminina multifacetada, atuando como mãe, dona de cada e enfermeira, fazendo o possível para atender as necessidades da família apesar das limitações trazidas pela gravidez. Entre as cenas mais agoniantes protagonizadas por Emily Brunt, está a passagem em que sua personagem entra em trabalho de parto no momento em que não tem qualquer companhia e, incapaz de conter um grito de dor causada pelas contrações, acaba atraindo um alien. No desespero da fuga, ela fura o pé em um prego e, num instante de ímpeto, consegue se jogar no banheiro, que faz de abrigo e o local do parto que acaba tendo que fazer sozinha. E sem fazer barulho.
É um filme que mais parece um recorte de um período muito mais extenso do que as lentes poderiam capturar e apesar de oferecer uma dinâmica diferente do que estamos acostumados - pois é natural que, com a gama de tecnologias disponíveis, as produções procurem explorá-las ao máximo -, Um Lugar Silencioso abre mão dos diálogos, deixando para a fotografia e os efeitos sonoros a missão de manter os espectadores atentos e, por que não, já que estamos falando de suspense, carregados de angústia. Mas, apesar da aparente limitação trazida pelo conflito central da trama, a boa notícia é que essa missão é cumprida. O filme, cuja maioria das cenas transcorrem no silêncio, torna o espectador um pouco mais conectado com a história a cada novo ruído. Que acabam se transformando em gatilhos, servindo de pontos de partida para sequências assustadoras.
Como em todos os formatos de comunicação e expressões artísticas, existem produções cinematográfica que, apesar de qualquer apelo sensacionalista e dos efeitos dramáticos que servem para estruturar cada roteiro, carregam em sua síntese um profundo questionamento e exercício filosófico. Infelizmente não é algo comum entre os lançamentos contemporâneos e, mesmo quando ocorrem, muitas vezes pecam pela falta de atratividade e apelo massivo. Ainda assim, vez por outra, roteiro, diretor e produção atingem um certo nível de harmonia capaz de gerar filmes interessantes, questionadores, emocionantes e chocantes, tudo ao mesmo tempo e em perfeita sintonia.
Trazendo reflexões importantes acerca do modelo de adaptação e domínio da raça humana sobre o planeta Terra, por mais que, num primeiro relance o espectador não seja capaz de captar esse ponto de vista, ele dificilmente vai alcançar o fim do filme sem atingir a conclusão de que, ao falar de uma peste assolando as sociedades contemporâneas, a obra também está se referindo à raça humana, numa alternância de perspectivas que, invariavelmente, nos faz trocar de lugar com outras espécies de animais que sequer foram mencionadas na obra, mas que foram extintas graças à maneira agressiva com que a humanidade dominou a superfície da Terra.
O drama consegue convidar os espectadores a, subliminarmente, pensarem sobre a cognição - o processo pelo qual absorvemos e aplicamos conhecimentos -, sobre o exercício dos sentidos - uma vez que os personagens se veem obrigados a abrir mão da fala ou qualquer outra linguagem que manipule ruídos -, e o que é melhor: as estruturas ideológicas de domínio da raça humana sobre a superfície da Terra. E com isso eu não estou falando de qualquer valor abstrato, pelo contrário, os sistemas bombardeados pelo filme é nada mais nada menos que o sentido de territorialidade -, desde uma perspectiva mais vasta, envolvendo cidades e nações, até a mais particular, envolvendo propriedades pessoais -, e instituições como família, religião e sociedade, que são reduzidos à sua essência mais elementar: um grupo de indivíduos que se unem para lutar pela sobrevivência juntos, numa mútua troca de apoio, tendo como objetivo comum a manutenção da espécie.
Apresentando um óbvio contraponto ao mundo tecnológico e individualista que vivemos atualmente, Um Lugar Silencioso presenteia a plateia com a perspectiva de que somente a união, simbolizada pela família, e o silenciar dos conflitos, muitas vezes provocado pelo excesso de palavras ditas sem a devida reflexão, podem nos preservar em um estado de calamidade crítica. E analisando a obra a partir de seus valores mais fundamentais, podemos entender a escolha de Krasinski em contracenar com sua esposa, Emily Blunt. Oferecendo ao público uma sintonia genuína que extrapola os limites da representação.
Quanto à atuação dos filhos do casal, cumprem o seu papel de coadjuvantes e motores que impulsionam seus pais a darem o melhor de si para garantir a sobrevivência da prole, uma vez que precisam conviver com a perturbadora certeza de que a vida de seus filhos está em risco iminente e contínuo, em meio a uma realidade que facilmente pode ser confundida com um pesadelo sem fim.