ANÁLISE: DE VOLTA PARA O FUTURO

SIMPLIFICANDO O IMPOSSÍVEL ATÉ TORNÁ-LO INEVITÁVEL


Lançado em meados dos anos 80, a comédia com temática de ficção científica dirigida por Steven Spielberg despontou como um dos maiores sucessos comerciais de sua década e inaugurou, no público e no cinema, um novo leque de possibilidades para filmes com temática futurista. 


Mais do que pela obra em si, o filme nos impacta pelas questões que ele desperta e alimenta dentro de nós. Da nossa relação com o passado e o quanto que os acontecimentos sucedidos interferem diretamente na nossa atualidade; assim como as projeções de futuro determinam nosso comportamento no agora. São reflexões que fazem com que a saga, apesar de ser uma superprodução voltada para a diversão e o entretenimento, consiga cumprir com a principal função de um obra de arte: oferecer novas perspectivas a partir das quais interpretar os fatos da vida. E De Volta Para o Futuro assume esse papel de maneira eficiente e agradável, sem parecer chato ou tendencioso. Tudo acontece naturalmente, como se esses tópicos sempre existissem dentro de nós, mas preferimos ignorá-las por parecerem enfadonhos e impraticáveis. 


Desde os primeiros minutos de filme, somos capturados pela atmosfera familiar - já que o protagonista carrega características comuns a todo adolescente de sua época e idade -, mas quando menos esperamos, estamos submersos em uma saga de ficção científica de cunho filosófico. Sim, isso mesmo. Por trás de todos os efeitos especiais produzindo cenas impressionantes, para a época, e dos diálogos originais e afiados, há uma carga metafísica que desperta paradigmas existenciais que sempre intrigaram a humanidade. 


E o que é melhor: com um roteiro que consegue trazer complexas teorias da física para uma perspectiva simplista e vulgar, enquanto aciona na nossa cognição um novo plano, infinito em possibilidades, sobre o qual libertar nossos pensamentos. Avançar ou recuar no tempo, interferir no futuro ou no passado. Avaliar as consequências de nossas ações a longo prazo. Assistir aos acontecimentos pretéritos que construíram o nosso presente; inaugurar linhas temporais paralelas, capazes de produzir mudanças na atualidade dos personagens. Entre tantas outras possibilidades e paradoxos que, inevitavelmente, hipnotiza qualquer indivíduo com um mínimo de relação com calendários e ávidos por um brecha através da qual burlar esse movimento temporal constante e linear que nos carrega adiante na vida. 




Ou seja, são questões de ordem interna, mas que, de alguma forma, se relacionam com mecanismos práticos. E todo o filme gira em torno dessa conversa entre as ferramentas materiais sendo manipuladas para atender ambições intelectuais.


O filme conta a história de Marty McFly, um adolescente americano típico morador da cidade fictícia de Hill Valley, um lugarejo pacato e ordeiro. As características da personalidade de Marty, a princípio, não produzem qualquer estranhamento no público, pois ele foi desenvolvido justamente para produzir reconhecimento imediato. McFly é guitarrista de uma banda de rock, apaixonado por skate e namorado de uma linda jovem. Marty é agitado e um tanto rebelde, por conta desse ar vanguardista tem uma relação instável com os pais, pois os considera caretas, e, pelo mesmo motivo, é perseguido pelo diretor e pelos professores de sua escola. Sua família é formada por uma mãe emocionalmente instável e alcoólatra, insatisfeita com o casamento; seu pai é um profissional mal sucedido na carreira que vive sofrendo abuso e exploração do seu chefe arrogante e intransigente; enquanto seus irmãos, aparentemente, não passam de dois inúteis.


O caráter incomum do protagonista vem do fato dele manter uma amizade com um cientista bem mais velho, o caricato Doutor Emmet L. Brown. Um personagem sonhador, futurista e idealista o suficiente para despender toda a fortuna de sua família e três décadas de sua vida na construção e conclusão do seu maior empreendimento científico: a geringonça tecnológica batizada de Capacitador de Fluxo, criada a partir da estrutura de seu valioso Delorean. Segundo Doutor Brow, aquele maquinário seria capaz de possibilitar a viagem no tempo. Não à toa, foi criada a partir de um delírio que teve após levar uma pancada na cabeça, onde pôde contemplar o resultado final, talvez em outro período de tempo, da criação que ele estava prestes a concluir com sucesso.


McFly, quando foi apresentado ao modelo final do Capacitador, não levou fé nas verdadeiras possibilidades do que estava testemunhando. Enquanto o doutor Brown garantia, no seu linguajar científico de ritmo acelerado, que aquele carro estava adaptado para funcionar como uma máquina do tempo que seria capaz de fazê-los viajar para o passado e para o futuro sempre que quisessem. Para comprovar a eficiência do dispositivo alimentado por plutônio, um elemento radioativo e proibido de ser comercializado, Doutor Brown fez uma viagem inaugural utilizando seu cachorro, Einstein, como cobaia. Depois de observarem o carro desaparecer diante de seus olhos para reaparecer alguns minutos depois no mesmo ponto, estava comprovado que o veículo conseguiu viajar até o futuro e retornar com sucesso. A partir dali o Doutor se sentiu ainda mais encorajado a se aventurar numa viagem temporal. Tudo estava certo para que ele realizasse o seu sonho de visitar o futuro quando a dupla foi surpreendida por um grupo de terroristas líbios armados, que foram cobrar o plutônio roubado por Emmet para ser revertido em combustível. 


O desenrolar dessa cena deflagra toda a série de conflitos a serem solucionados ao longo do filme, quando McFly se vê forçado a embarcar no carro para uma viagem ao passado com a intenção de evitar um assassinato.


Entre as referências fotográficas mais sugestivas, podemos apontar a primeira cena do filme, quando somos recebidos dentro do universo da trama através de um quarto tomado por relógios de incontáveis modelos e estilos diferentes. Todos barulhentos o suficiente para produzir um ambiente cujo confronto e desconforto com o tempo é inevitável. Outra de afirmação da mensagem foi quando o grande relógio da torre de Hill Valley quebrou, e uma mulher, também tomada pela urgência, recolhia donativos das pessoas na rua para financiar o concerto.


Ao longo de todo o filme os relógios e os calendários pontuam as cenas mais marcantes, como se a direção quisesse a todo tempo reforçar a relação da compreensão de tempo com a contagem das horas e dos anos, uma associação que, a nível cognitivo, atua continuamente nas nossas percepções; mas, a nível metafísico e, consequentemente, inconsciente, a noção do tempo como uma força linear e incorruptível nem sempre é uma regra. Porém, o filme fez questão de propor essa ligação para, pôr sobre ela, apresentar uma importante ruptura na ordem natural da vida e dos acontecimentos. Numa violação da nossa noção básica de tempo-espaço que, se não fosse a todo tempo lembrada, talvez não nos impressionasse tanto.  


Um conflito que não pode ser esquecido como um retrato insólito em meio a um cenário que, por si só, é de natureza incomum e bizarra, é a paixão que a mãe de McFly sente por ele, quando o conhece durante a incursão do protagonista no passado. É claro que a personagem não tinha qualquer desconfiança de quem o rapaz se tratava, pois àquela altura do filme, ele era apenas um jovem da sua idade, a quem achou atraente. Porém, apesar deles beirarem uma relação incestuosas - que sequer poderia ser chamada assim, uma vez que a única pessoa realmente disposta a iniciar a relação, Lorraine McFly, não tinha consciência do nível de proximidade que havia entre Marty e ela. A postura apavorada e esquiva de Marty tratou de eliminar qualquer sensação desconfortável na platéia e transformar a paixonite de Lorraine pelo jovem que viria a ser seu filho no futuro, em passagens recheadas de humor.


A saga De volta para o futuro é a prova de que comédias também podem propor perspectivas e reflexões profundas, neste caso, de cunho existencialista. Por mais que, geralmente, tendem a exigir do público um olhar analitico na leitura das mensagens subjetivas e apático para com os efeitos, tiradas e recursos cômicos mais gritantes e superficiais do filme. O que muitas vezes podem se apresentar como armadilhas; não para o público, mas para os roteiristas e produtores, pois a possibilidade das mensagens de segundo plano permanecerem despercebidas é sempre muito grande. Por mais que elas atuem ininterruptamente no subconsciente dos espectadores. Pois muitas pessoas não percebem que a estrutura principal na criação de qualquer narrativa é justamente o plano teórico. Elas seriam as vigas que sustentam os conflitos e as cenas que servem de plano de atuação para os personagens. Então, quanto mais ambiciosa for a história, mais profundas e robustas essas vigas precisam ser. E a incapacidade dos escritores e roteiristas de compreenderem essa relação é o que faz com que produções realmente hilárias se transformem em um mero instante de distração que serão esquecidas algumas horas depois da exibição ou sequer serão capazes de manter o público conectado às cenas por muito tempo.


De Volta para o Futuro não se enquadra nessa categoria. O filme, além de ser divertido e engraçado, também provoca a imaginação dos espectadores, que inevitavelmente se colocarão a projetar possibilidades de futuro a partir dos elementos que podemos encontrar no presente, e, o que é melhor, voltar o olhar para o passado a fim de compreender os movimentos que construíram nossa atualidade.


Sendo assim, podemos dizer que a trilogia cumpriu o seu papel em vários níveis diferentes. Foi um investimento bem sucedido, divertiu o público e foi capaz de transmitir uma mensagem fundamental rica de significados. Pois quando nos propomos a imaginar e projetar cenários e períodos futuros, ou mesmo analisar as passagens que nos trouxeram até este ponto da história, estamos praticando um exercício filosófico que nos faz pensar e observar nossa atualidade com um olhar crítico, construtivo e a partir de múltiplas perspectivas, o que atua no sentido contrário a qualquer tipo de preconceito. Uma atividade importante e da qual estamos carentes nos dias de hoje. Porém, nada que uma superprodução do passado não possa nos ajudar a resgatar.