INTIMIDADE HACKEADA

COLETA DE DADOS PESSOAIS, MANIPULAÇÃO DE AUDIÊNCIA, CRIAÇÃO E DISSEMINAÇÃO DE FAKE NEWS E OUTROS CRIMES DE INVASÃO FRUTÍFEROS NA INTERNET

INTRODUÇÃO

Há cerca de duas décadas atrás uma pessoa comum que dissesse ter a impressão de que estava sendo vigiada o tempo inteiro, mas era incapaz de apontar quem a estava perseguindo ou por que isso estava acontecendo, poderia facilmente ser chamada de louca ou paranoica.


Mas no mundo contemporâneo a maioria de nós pode dizer sem o risco de parecer nem mesmo desconfiado, que estamos sendo monitorados em tempo integral por mecanismos de coleta de dados que, em algum momento, vão utilizar nossas informações pessoais para tentar nos influenciar de alguma forma. E não há exagero na afirmação de que qualquer indivíduo que tenha um perfil, verdadeiro ou fake, para fins pessoais ou profissionais, em qualquer plataforma de interação interpessoal e publicação de conteúdo, que já tenha feito algum tipo de transação financeira online ou eventualmente costuma navegar por entre portais de notícias, com toda a certeza está tendo seus movimentos coletados para que essas informações sejam disponibilizadas a anunciantes, que poderão utilizá-las para fins comerciais, ideológicos, partidários, religiosos, ou quantos mais forem possíveis.

Neste artigo eu vou falar sobre três dos casos de espionagem e invasão de privacidade que ocorreram inteiramente por meios online e a partir de mecanismos digitais. Em cada um deles foi provado de formas diferentes que, quando se trata de internet, nenhuma informação está a salvo. E desde o e-mail com um resumo sobre o livro, até as suas fotografias e vídeos íntimos estão servindo para ajudar algoritmos a traçarem seu perfil e te encaixar em grupos de indivíduos suscetíveis a fluxos de informações específicos.


CASO WIKILEAKS

O primeiro dos três casos foi protagonizado pelo programador australiano Julian Assange, que apesar de ter ganhado notoriedade a partir da primeira década do século XXI, já vinha sendo observado pelas atividade como hacker desde os anos 90. Julian fundou o Wikileaks em 2006. E utilizava a plataforma como espaço de publicação, com fontes anônimas, de documentos governamentais sigilosos, onde eram expostos crimes de repressão e quebra de direitos humanos por parte de governos e regimes de autoridade.

O primeiro escândalo deflagrado pelo Wikileaks aconteceu no ano de 2007, quando foi exposto ao público o manual de procedimentos militares da base de Guantánamo, em Cuba, ocupada pelas forças de segurança americanas. Após os atentados de onze de setembro, o complexo ficou responsável por manter encarcerados presos de alta periculosidade acusados de envolvimento com grupos terroristas como Al Qaeda e Talibã. Nos documentos, os militares eram orientados a utilizar de técnicas de tortura e abuso nos interrogatórios.

Um ano depois foram difundidos trechos e imagens de e-mails pessoais da governadora do Alasca, Sarah Palin, que concorria como vice-presidente nas eleições de 2008, onde Barack Obama saiu vitorioso. 

Em 2010 o Wikileaks divulgou um vídeo contradizendo a versão oficial do governo americano sobre a morte de onze iraquianos. No mesmo ano, 91 mil documentos secretos sobre a guerra do Afeganistão e 391 mil documentos do Pentágono foram expostos ao público. A esta altura, Julian Assange já estava sendo perseguido pelo governo sueco, pela acusação de abuso sexual. Alguns meses depois da oficialização do processo, a plataforma começou a liberar mais de 250 mil documentos diplomáticos confidenciais do governo americano.

É claro que no caso Wikileaks a maior vítima do hackeamento de informações e quebras de sigilos foram os maiores governos e corporações do mundo. Porém, esse evento deixou claro que, se nem mesmo o estado mais poderoso do mundo era capaz de garantir a confidencialidade e segurança de suas informações mais sigilosas, os dados pessoais de cidadãos comuns provavelmente eram ainda mais fáceis de serem acessados.

E o caso seguinte só veio confirmar a desconfiança. 

A partir de então ficou claro que a resposta era sim: cada acesso, reação, postagem e comentário que você deixa na grande maioria dos ambientes online, e não somente das redes sociais mais populares, ficam registrados em banco de dados individuais. E conforme esses bancos vão sendo alimentados, o seu perfil vai sendo definido. 


CASO SNOWDEN

Até maio de 2013, Edward Snowden poderia ser definido como um modelo de cidadão americano. Formado em uma grande universidade, casado com uma bailarina e que conseguiu atingir sucesso profissional ao integrar a Agência Nacional de Segurança (NSA) Americana como técnico de TI. Um quadro que se transformou após o mês de junho do mesmo ano, quando o jovem de 29 anos expôs para todo o mundo documentos confidenciais acerca da prática de espionagem e vigilância global praticado pelas agências de segurança americana utilizando servidores de empresas como Google, Apple e Facebook. Entre os documentos, havia uma extensa base de dados a respeitos de informações, gravações e imagens de natureza íntima de indivíduos usuários dessas plataformas de tecnologia e interação, além de um programa de espionagem governamental que infringiu uma série de tratados diplomáticos entre o governo dos E.U.A. e dezenas de outras nações, incluindo países da União Européia e o próprio Brasil. 

Entre os documentos divulgados por Snowden estavam conversas da ex-presidente Dilma Rousseff com seus principais assessores.

O Caso Snowden não só apresentou ao mundo a extensão do risco que as tecnologias online podem oferecer para a privacidade dos indivíduos, como deflagrou uma série de crises diplomáticas entre o Estado Americano e outros governos ao redor do Mundo.

Logo que as informações divulgadas pelo programador ganharam as manchetes do planeta, o governo americano processou seu ex-funcionário por espionagem e vazamento de informações Sigilosas. Snowden, que deu suas primeiras entrevista em maio de 2013, enquanto estava em Hong Kong, um mês depois voou para Moscou, na Rússia, com quem os EUA não têm tratado de extradição, numa viagem apoiada pelo Wikileaks, de Julian Assange, que enviou militantes para ajudar na trânsito de Eduardo. Uma vez em solo Russo, Snowden enviou pedido de asilo para 21 países, entre eles o Brasil, dos quais apenas três se dispuseram a recebê-lo: Venezuela, Bolívia e Nicarágua. O técnico em computação, porém, acabou ficando na Rússia ao ter seu pedido de asilo aceito pelo país, onde permanece até hoje em local desconhecido.

Mas, afinal, por que essas plataformas de tecnologias têm tanto interesse nas informações pessoais de seus usuários?

A proposta inicial desses mecanismos era atender a interesses comerciais e publicitários.

Plataformas como o Google se aproveita das buscas que você faz para, a partir dela, começar um processo de assédio por meio de publicidades direcionadas, que são veiculadas ininterruptamente no Gmail, youtube ou em qualquer pixel reservado ao Adsense nos sites que visitamos para os mais variados fins. 

Enquanto o Facebook pode ser considerado pouco mais invasivo. Na medida em que não espera que ninguém faça uma busca ou forneça voluntariamente termos e temas de interesse. Ele apenas utiliza de cada clique, curtida, compartilhamento e postagens para alimentar algoritmos criados para os mais variados fins, que traçam nosso perfil psicológico e nos posiciona em grupo de interesses que poderão ser utilizados por qualquer empresa, iniciativa ou indivíduo disposto a despender dinheiro para direcionar conteúdo para públicos específicos, quase sempre interessado em produzir comportamentos pré-determinados, com comprar um produto, acessar um link, assinar um serviço ou até votar em um candidato a presidente.


CAMBRIDGE ANALYTICA

O últimos dos três casos pode ser melhor definido como invasão de privacidade e manipulação de audiência do que propriamente espionagem. Mas, sem dúvidas, é o mais emblemático dos escândalos e, infelizmente, foi o que mais gerou impacto social a nível global. 

A série de denúncias envolvendo a agência de coletas e análise de dados Cambridge Analytics mostrou ao mundo as consequências que podem ser geradas ao oferecer informações pessoais de milhões de indivíduos para grupos dispostos a utilizarem de qualquer estratégia e discurso de comunicação para alcançar seus objetivos, que neste caso específico foi a conquista de poder por vias eleitorais.

A Cambridge Analytica foi fundada por cientistas de dados vinculados ao partido republicano, que ao lado do Democratas são os dois grandes partidos políticos dos EUA. Entre seus fundadores mais notórios está Steve Bennon, que assumiu um papel definitivo na campanha eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca e, posteriormente, se tornou o conselheiro estratégico do presidente.

O projeto utilizado pela C.A. em todas as eleições nas quais atuou foi baseado em uma experiência de Michal Kosinski e David Stillwell, ambos especialistas em estudos de personalidades formados pela Universidade de Cambridge. Juntos, os dois pesquisadores se orgulhavam de serem capazes de traçar um perfil psicométrico preciso dos usuários a partir das publicações que eles sinalizavam com o botão "Curtir" do facebook.

A serviço da C.A. e integrados com outros pesquisadores, analistas e programados, o grupo desenvolveu uma série de páginas e aplicativos de testes de personalidade no estilo do 'MyPersonality', que acumulou mais de seis milhões de resultados obtidos a partir de respostas deixadas por usuários ao responderem perguntas divertidas e evasivas sobre comportamento no estilo "Qual Pokémon Você Seria?" - "Para qual Casa você iria em Hogwarts" - "Qual personagem da série Friends você seria". As questões, a princípio, pareciam inocentes, mas subjetivamente acumulavam informações específicas dos usuários, como a tendência para se envolver e finalizar projetos, o quão vingativo cada pessoa poderia ser, Se tinham um perfil ativo ou passivo mediante as ações sociais, O nível de satisfação diante da quadro político, entre tantos outros apontamentos.

Em números totais, a C.A. acessou os dados de mais 87 milhões de usuários do facebook sem autorização. 

Segundo Alexander Nix, o então CEO da C.A.: "Se você conhece a personalidade das pessoas que você quer atingir você pode adequar sua mensagem para ressoar de forma mais efetiva nesses públicos-alvo chave."  Numa afirmação que poderia ser traduzida em: se você conhece o perfil psicológico do seu público-alvo é mais fácil produzir informações capazes de manipular o comportamento desse público.

E na prática representou o disparo massivo de informações, muitas vezes mentirosas e inventivas, criadas para atingir públicos específicos, justamente o de psicológico mais suscetível à natureza panfletista das mensagens.

O resultado das estratégias de campanha traçadas pela C.A. foi um sucesso em países como EUA, ao eleger Donald Trump. A agência também atuou nas eleição e reeleição de Uhuru Kenyatta, presidente de Quênia, em mais uma campanha baseada na disseminação de notícias falsas criadas para gerar medo e revolta na população. A C.A. também exerceu influência direta no resultado das eleições dos países República Tcheca, Ucrânia e Malásia e no Brexit, o plebiscito popular que culminou com a saída do Reino Unido da União Europeia. 

Em muitas campanhas e países, a agência não utilizou o seu nome oficial, recorrendo à sua primeira versão, conhecida como SCL Group, e em outras atuou de forma sigilosa. O que se sabe é que, no total, a empresa pode ter sido acionada em mais de 100 campanhas eleitorais em cinco continentes. 

Um dos melhores conteúdos sobre a estratégia de atuação e os efeitos da C.A. nas eleições americanas podem ser visto na Netflix, no documentário Privacidade Hackeada, dirigido por Karim Amer e Jehane Noujaim. O filme se baseia no depoimento de Brittany Kaiser, uma analista de dados que, ao se associar à C.A., passou de militante de direitos humanos para uma das peças centrais da campanha de Donald Trump.


CONCLUSÃO

É claro que não podemos deixar de reconhecer o quanto as tecnologias de informação e comunicação transformaram positivamente a maneira como absorvemos, interagimos, produzimos e publicamos conteúdo informativo e criativo, em muitas linguagens e esferas sociais diferentes. A verdade é que a internet e os espaços de socialização na rede despertou em nós um sentido de globalidade que nenhum outro meio de comunicação foi capaz. E isso é bom, promove uma efetiva democratização do conhecimento e permite que muitas narrativas diferentes para um mesmo acontecimento ou uma mesma realidade possam ser criadas e divulgadas em larga escala. O que, por si só, impede a validade de um único ponto de vista ou interpretação para qualquer fato social.

O grande viés negativo dessa transformação é quando esses mesmos mecanismos de aproximação entre indivíduos e culturas diversas são utilizados para promover a desinformação, a discriminação, o extremismo ideológico e a instabilidade social ao mapear e explorar as fraquezas e brechas que cada indivíduo carrega.

A lição que podemos tirar de todos esses escândalos é que uma armadilha informativa pode estar escondida na postagem mais atraente, engraçada e, aparentemente, inofensiva. E se há poucos anos atrás acreditávamos que a matéria-prima mais preciosa do mundo moderno era o petróleo, hoje sabemos que os dados e a informação alcançou um valor e uma importância equivalente, senão maior. E o grande indicador dessa afirmação está no fato das organizações mais ricas e poderosas da atualidade serem as empresas de tecnologia da informação.