EXCESSO DE TRABALHO, PADRÃO DE BELEZA E DE COMPORTAMENTO IDEALIZADOS E COBRANÇAS SOCIAIS MARCAM A REALIDADE DAS ESTRELAS DO ESTILO QUE VIROU FENÔMENO MUNDIAL
Surgido no início dos anos 90, o Korean Pop, conhecido mundialmente como K-pop, se destaca como um estilo que une uma forte presença de música eletrônica, apesar de utilizar variados ritmos como base, e um impecável apreço estético, quase sempre ajudados por manipulação digital de imagens. Mas apesar da aparente perfeição audiovisual, o lado avesso, ou melhor, humano, do fenômeno musical é bastante complexo e um pouco assustador se analisarmos o contexto social que produz e mantém o mundo K-Pop como um cenário propício para o desenvolvimento de distúrbios e doenças psicológicas entre os artistas e, como verão, a população como um todo.
Para entender esse ponto de vista temos que começar pela sociedade sul coreana, que apesar de ter uma das economias que mais se desenvolveram nas ultimas décadas, saindo de um país subdesenvolvido agrícola para uma das maiores potências mundiais, por outro lado, detém a maior taxa de suicídio do mundo desenvolvido. Resultado de um sistema educacional voltado para "produção" de indivíduos altamente competitivos, evocando o sentido de individualidade, e que precisam estar sempre "dando o melhor de si" para alcançarem posições de liderança e destaque na sociedade. Um perfil dentro do qual alguns podem se ajustar facilmente, mas outros precisam ter suas características mais pessoais mutiladas para que possam se encaixar. É uma avaliação superficial da sociedade, sim, mas é verdadeira e ajuda a compreender o estigma que marca os artistas do K-pop. Pois esse estilo musical , que movimenta valores dignos de uma grande indústria, serve apenas como um exemplo do quadro social geral. E por ser o cartão postal do país, tudo o que acontece com os personagens dessa indústria ganha grandes proporções, principalmente quando consideramos a importância desses ídolos têm para a cultura local.
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| Grupo F(x): Sulli, no centro da imagem, foi encontrada morta em seu apartamento. |
Juntando tudo isso ao fato de que desde muito cedo os artistas precisam começar a se dedicar a aulas de dança, canto e interpretação, passando por anos de treinamento até que estejam no mesmo nível das grandes estrelas, para então tentarem uma estréia entre as gravadoras e produtoras do setor; indo além, devem atender a padrões estéticos muito rígidos para se enquadrarem no perfil que os fãs esperam encontrar em seus ídolos. E tendo sempre a consciência de que, em geral, as bandas ficam muito pouco tempo no topo da indústria. Então, uma vez que conseguem algum destaque, seus integrantes devem se dedicar 100% à carreira, o que significa trabalhar muito, descansar pouco e passar longos períodos longe da família e dos amigos.
Trata-se de um padrão de comportamento muito limitado e cruel em que os artistas precisam se enquadrar se não quiserem se tornar alvo de críticas e perseguições por parte dos fãs. É como se, ao decidirem se tornar estrelas musicais, eles precisassem entrar dentro de um cubo e nele permanecer enquanto estiverem fazendo sucesso, para não pôr a perder o trabalho de toda uma vida por uma questão de "capricho".
Piorando ainda mais o quadro, a depressão em si é vista com muito preconceito por parte da população, que considera a doença uma "fraqueza moral" e vê o suicídio como um ato de covardia, fazendo com que indivíduos depressivos não só sejam descreditados da devida atenção como se tornem alvo de... Mais críticas!
Dedicação excessiva, cobrança excessiva e competitividade excessiva. Assim fica estabelecido um terreno fértil, em vários níveis diferentes, para o surgimento e desenvolvimento de vícios, dependências e distúrbios psicológicos, que têm o seu ponto mais crítico nas tentativas de suicídio, sejam conscientes, diretas ou indiretas - através do uso exagerado de drogas.
Então, quando nos depararmos com manchetes noticiando o afastamento, uma overdose ou tentativas de e suicídios efetivos de artistas do K-Pop, precisamos entender que não se tratam de casos isolados ou fatalidades, é o resultado previsível da soma de todos esses fatores atuando ao mesmo tempo sobre indivíduos de grande necessidade expressão, mas tolhidos desse exercício. São gritos por socorro em alto e bom som, reclamando uma atenção que, enquanto não for dada, permanecerá gerando perdas crescentes e contínuas.
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